25 de julho de 2018

(Artigo) “25 de julho: Exigimos justiça para as mulheres negras”

*Marluce Remígio

 

Pensar a realidade Brasileira do ponto de vista histórico é uma tarefa dolorosa. Em 518 anos de trajetória, nosso país tem as marcas da opressão enraizadas em todos os seus campos de atuação. O primeiro passo para combater isso, é falando abertamente sobre o assunto, trazendo dados e apresentando uma nova visão.

No 25 de julho comemoramos o dia internacional da mulher negra latino americana caribenha. A data se propõe a reflexão e resistência em defesa dos direitos dessa camada da população que até hoje sofre com a reprodução do machismo e do racismo que continuam sendo pilares da nossa sociedade.

Dados do IBGE apontam que 30% da população brasileira é de mulheres negras. Quase um terço das pessoas, que na prática são invisibilizadas e massacradas todos os dias. Em se tratando de mercado de trabalho, por exemplo, 63% das pessoas desempregadas são mulheres negras. Em um dado ainda mais alarmante, foi constatado que 96% das mulheres negras estava desempregada no primeiro trimestre de 2017.

Elas são jogadas no mercado informal, com condições totalmente precárias. Isso não é por acaso, trata-se de uma herança maldita que carregamos dos tempos da colonização escravagista do nosso país. A escravidão que foi “abolida” em 1888 continua se reproduzindo em relações de trabalho e oportunidades desiguais entre as classes e etnias.

Se ser negro no Brasil tem grandes chances de opressão e sofrimento, ser mulher negra dobra essa chances. A mulher negra ganha menos, trabalha mais, sofre muito mais violência, e quase sempre é invisível aos olhos do sistema.

Esquecidas pelo poder público, são as mulheres negras as principais responsáveis pelo funcionamento do país. São elas que cuidam dos filhos (delas e das outras), que executam as tarefas mais pesadas, e que mais morrem por falta de acesso ao serviço de saúde pública.

Movimentos de mulheres tem lutado contra a violência, apresentado avanços significativos na legislação, mas as mulheres negras continuam sem acesso. Elas não tem a proteção do Estado, quase nunca tem condições de recorrer a justiça. Enquanto o feminicídio caiu 10% entre as mulheres brancas, o mesmo índice aumentou 54% com as negras. Precisamos dar uma atenção especial a esse dado.

Ainda não sabemos a solução desses problemas, mas tenho a convicção de que ela precisa passar pela educação. Tanto dentro quanto fora das escolas, precisamos dar visibilidade às mulheres negras. Contar a história de referências como Dandara, Tereza e Benguela e muitas outras mulheres que ficam à sombras dos homens até hoje. Reconhecer a importância de quem fez e faz esse país, para que as próximas gerações não reproduzam a lógica colonial racista e machista é fundamental.

Também precisamos de políticas públicas, programas que reparem esse abismo que separa as mulheres negras do resto da população. Isso é obrigação do Estado, e levará séculos para ser totalmente reparado. Mas precisa começar, já!

Seguiremos em Marcha até que todas sejamos livres!

 

*É professora, dirigente do Sinteal, membro do Conepir, e militante da Marcha Mundial das Mulheres.

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