30 de junho de 2020

“SINTEAL DEBATE” pôs em discussão, na última 6ª feira (26/7), como construir uma educação antirracista

Mais um “SINTEAL DEBATE” (live) foi realizado na última sexta-feira (26/07), com transmissão pelos canais do sindicato no Youtube e Facebook, desta vez para discutir o tema “A construção de uma educação antirracista”, e que contou a participação da diretora do Sinteal e também presidente do CONEPIR – Conselho Estadual de Promoção da Igualdade Racial em Alagoas, Profª Marluce Remígio; dos convidados locais Profº/Mestre Zezito Araújo (historiador, ativista do Movimento Negro e representante da Secretaria de Estado da Educação – SEDUC/AL, no NUDIME) e Profª/Doutora Lígia Ferreira (Professora do Curso de Letras da UFAL – Universidade Federal de Alagoas), e da convidada especial, Profª Iêda Leal (integrante do MNU – Coordenadora nacional do Movimento Negro Unificado – e diretora da Secretaria de Combate ao Racismo da CNTE – Confederação Nacional dos Trabalhadores em Educação). A atração cultural ficou por conta de um artista também especial, o conhecido cantor e parceiro de lutas Igbonan Rocha.

Abrindo a live, Marluce convidou o cantor Igbonan Rocha, que abriu “a capela” o “SINTEAL DEBATE”, e em vários momentos da live cantou músicas de temática afro. Em seguida, Marluce fez as apresentações dos palestristas, e iniciou a live com a educadora Iêda Leal, saudando inicialmente a participação musical de Igbonam Rocha, lembrou que “é através da música que conhecemos os nossos lugares, os nossos terreiros”.

“Estamos aqui para debater a importância que nós, negros, temos nessa luta, e agora muito a partir da convocação que fazemos aos não negros para que construamos uma sociedade melhor, num momento de luta pela sobrevivência e de cobrança que estamos fazendo ao Estado, que tem falhado gravemente na proteção das nossas vidas, para que se redima dessa falha com urgência”, disse a ativista.

Segundo Iêda, para se pensar em construir uma educação antirracista é fundamental ter em mente a importância histórica do papel da comunidade negra na construção da sociedade brasileira. “Mas não pode ser apenas uma letra escrita no rodapé de um livro, tem de ser um livro todo contendo a nossa história para que sejam dirimidas essas informações não legais sobre o nosso povo em nosso país”. Para ela, “falar em educação antirracista significa compreender que o racismo tem impedido os avanços necessários em prol de outro tipo de sociedade”. E foi enfática ao dizer que, “nós não vamos querer tacar fogo em nossa história, mas é preciso incendiar algumas coisas para que das cinzas possamos recriar, reviver a nossa história”.

Ela alertou que a população negra representa 57% da população brasileira, “e precisamos ser respeitados”. E uma sociedade que quer mudanças precisa se voltar para a coletividade, precisa compreender e respeitar a pluralidade, não sendo racista, nem sexista, não sendo lgbtfóbica e não tendo o fascismo como uma organização de Estado. Isso é fundamental”.

A professora Iêda disse que a construção antirracista requer questões fundamentais, “como repensar o currículo, aflorar a identidade que existe dentro da escola, afinal de contas, quem, por exemplo, limpa a escola tem uma identidade, tem um nome, vem de um lugar. E é preciso também rever a formação de todos esses profissionais”.

Fechando sua participação inicial, Iêda Leal disse que para se construir uma educação antirracista é preciso mais que o respeito à lei, “pois é preciso ter muito conhecimento e pensar pluralmente na diversidade, num plano de ação que supere o racismo dentro da escola. Claro, o professor é um mediador muito representativo nesse sentido, mas precisamos que toda a escola, com todos os seus atores, se organize para fazer a discussão e barrar, quando houver necessidade, toda e qualquer situação de racismo no ambiente escolar”.

Em sequência à professora Iêda, expôs as suas opiniões primeiras a professora Lígia Ferreira, da Universidade Federal de Alagoas (UFAL), que, evidenciando um processo de dúvidas que julga pertinentes, indagou que seria, de fato, construir uma educação antirracista, quem constrói essa educação, qual o papel de uma escola antirracista, e também qual o papel de um educador e de um educando antirracistas?

“Refletindo com bases nessas indagações, dentro desse momento de prática de uma educação remota, pela internet, copiada de outros países como uma moda que deu certo, posso dizer que discordo e vejo nesse momento, nessa plataforma de educação um claro exemplo da educação racista. Eu entendo que o espaço de uma escola emancipada, de uma escola antirracista é o espaço que leva em consideração a educação como um espaço de construção de vínculos, de construção de experiências, afetos, saberes e dúvidas”, disse a professora.

Para Lígia Ferreira, a forma de aulas remotas é um “faz-de-contas, que no meu entender já começa numa internet falha que prejudica as aulas, mas principalmente milhares de estudantes que não têm condições financeiras para o acesso a elas”. E a professora citou o Estado de Alagoas, com seus altos índices de pobreza e desigualdade, como exemplo: “aqui, os estudantes mais pobres não fazem parte desse processo eletrônico, virtual de educação. E, também, os conteúdos ministrados só reforçam o que essa sociedade exploradora e desigual quer que sejam ensinados”.

Para a professora, “que o Brasil é racista, ora, isso todos já sabemos! Mas não discutimos esse racismo estrutural. E a nossa educação é, por excelência, racista. Assim, quando as aulas voltarem, sabe lá como, muitos desses estudantes excluídos, a maioria negros, não voltaram para a escola, seja por terem morrido, ou por terem buscado um trabalho para sobreviver, e o racismo continuará dentro da escola e do processo educativo”.

Fechando a parte inicial antes das etapas de perguntas e respostas, o professor e historiador Zezito Araújo iniciou sua fala lembrando que, ao contrário do que aconteceu no mundo inteiro a partir da morte do negro estadunidense Gergorge Floyd [em 20 de maio último], “a luta antirracista, no Brasil, começa desde que nós fomos desterritorializados do Continente Africano e de parte da Ásia. Assim, pensar numa educação antirracista, no meu entender, é pensar a partir de um racismo estruturado e estruturante, procurando entender como essa forma de racismo foi construída e solidificada na sociedade brasileira”.

Para Zezito, mesmo numa historiografia e numa literatura escrita por não negros até por negros, “que prioriza o protagonismo de uma elite branca, judaica e cristã dirigente, vemos que não se contempla o papel do negro no protagonismo da construção da sociedade brasileira, mas a verdade é que nossos ancestrais vieram para salvar e para gerar riquezas, e isso, esse protagonismo, não se revela em todo o nosso processo histórico”.

“Se estamos falando numa educação antirracista”, diz Zezito Araújo, “temos que discutir por que essa visão eurocêntrica está embutida em grande parte dos nossos profissionais educadores. E aí temos que fazer uma análise de nós mesmos. Como o movimento negro unificado enxerga a nossa participação no ensino médio, já que é preciso entender que essa grande parte de profissionais que possui essa visão eurocêntrica do processo educativo, é assim porque ela é parte do processo de racismo estruturante que há no Brasil”.

Finalizando sua apresentação, o professor Zezito esclareceu que sua observação crítica não estava voltada sobre ou contra o Movimento Negro Unificado, “mas sim, e principalmente, com o Estado brasileiro e sua postura arbitrária de, por exemplo, não abrir espaço às representações da luta negra para discutir esse racismo estruturante”.

Após a fala do professor, foi exibido um vídeo de um ato público realizado na cidade de Maringá, no Estado do Paraná, em em protesto contra as mortes causadas pelo racismo, principalmente por forças policiais.

Nas considerações finais, a mediadora Marluce Remígio lembrou que “uma educação que não questiona o racismo, se torna refém de uma educação que reproduz o racismo como normal, não é capaz de confrontar essa normalização”.

A professora Iêda Leal disse que não dá mais para “ficar brincando” em datas que tratam da luta negra, “temos que completar o calendário. São duzentos dias letivos a cada ano, o dia todo, a vida toda para respirar a dignidade de todos os povos, inclusive nós, não é bacana? É preciso ensinar às crianças o respeito à diversidade”. E enfatizou que é preciso ter coragem para denunciar os racistas e seus atos racistas, e que para isso é preciso ocupar todos os espaços de luta na escola e nas outras instituições da sociedade civil organizada.

A professora Lígia Ferreira enfatizou que “a nossa prática é a prfática pela liberdade”.

O professor Zezito Araújo encerrou afirmando que a luta do movimento unificado “é para que tenhamos uma educação mais equânime para todos nós. A educação precisa ter esse olhar diferenciado. É fundamental, para que tenhamos uma sociedade não racista, que esta luta seja de todos nós: negros, brancos, uma luta do povo brasileiro.

Aproveitando a homenagem que a professora Iêda Leal fez dos aniversários de Elza Soares, cantora (90 anos), Sueli Carneiro, filósofa, escritora e militante antirracista (70) e também ao marinheiro João Cândido (líder da Revolta da Chibata).

Igbonan Rocha, nossa especial atração musical alabaiana, encerrou sua participação cantando duas músicas “O Mestre-Sala dos Mares”, de João Bosco e Aldir Blanc (em retribuição à homenagem feita pela professoa Iêda Leal, ao marinheiro João Cândido, o “almirante negro”); e a também conhecida “Sorriso Negro”, da sambista Dona Ivone Lara.