24 de novembro de 2021

ARTIGO: “ENEM elitista e com queda nas inscrições escancara desigualdade na educação”

Por Consuelo Correia*

 

O acesso à educação é um direito básico garantido na Constituição Federal. Mas no Brasil, e ainda mais gravemente em Alagoas, esse direito é um privilégio para poucos.

Os números do ENEM deste ano são uma triste constatação dessa desigualdade. No primeiro ano de pandemia, quando fomos pegos de surpresa, a realização da prova que garante o acesso dos filhos da classe trabalhadora à universidade foi marcada pelo aprofundamento das desigualdades. Vimos nossos alunos sofrendo depois de um ano inteiro sem estrutura para estudar, muitos sem acesso sequer às aulas online, e isso se refletiu no pior índice de inscrições desde 2008.

Um ano depois, sem o elemento surpresa, continuamos vivenciando uma educação remota precária, Governos Estaduais e Municipais demoraram longos meses para fornecer estrutura de equipamentos e internet aos profissionais, e ainda mais tempo para atender os estudantes (muitos locais ainda não forneceram esses equipamentos). Mesmo com o índice tão baixo em 2020, esse ano as coisas pioraram: Tivemos uma redução nos inscritos para o ENEM em Alagoas de 32% em relação ao ano passado.

Os dados são alarmantes porque escancaram um problema que já existia antes da pandemia, um abismo enorme entre os alunos da escola pública e a rede privada. Responsável por 80% de todo o ensino no Brasil, a escola pública sofre com o ataque promovido pelos neoliberais desde o Golpe de 2016.

Nós, trabalhadoras e trabalhadores da educação, presenciamos não apenas as dificuldades dentro da escola, mas a falta de condições mínimas dentro de casa e de um espaço adequado para estudar.

Outro aspecto que não podemos ignorar, é que esse público excluído tem cor. A chaga da escravidão continua aberta na terra de Zumbi. Sem acesso à educação superior, nossos alunos de escola pública (em sua maioria negros e negras) acabam reproduzindo um modelo de sociedade em que ocupam trabalhos precários e com menores rendas e desproteção cívico social.

Até quando lidaremos com o mito da meritocracia, vendo nossos alunos e alunas acorrentados à realidade dura e cruel, enquanto minorias privilegiadas ocupam seus lugares?

 

*Consuelo é professora da rede municipal de ensino de Maceió, aposentada da rede estadual de Alagoas e presidenta do Sinteal.