3 de novembro de 2021

Rita Von Hunty encerra Rodas de Debates do 15 Congresso do Sinteal

Aprofundando o debate sobre a reinvenção do sindicalismo e a importância de reconhecer como sujeitos todas as pessoas que compõem a classe trabalhadora, o Sinteal realizou no dia 28 de outubro sua última Roda de Debate preparativa para o 15º Congresso Estadual dos/as Trabalhadores/as da Educação de Alagoas. Com o tema “A quais corpos é estendido o conceito de humanidade”, a professora, drag queen e youtuber Rita Von Hunty associou a pedagogia de Paulo Freire à importante missão de lutar contra a homofobia.

Consuelo Correia ressalta que a etapa das rodas está sendo finalizada com um saldo muito positivo para o Congresso. “Realizamos entre agosto e outubro 7 rodas de debates, congressos municipais evolvendo 50 cidades e 11 congressos regionais. Celebramos o centenário de Paulo Freire da melhor forma, refletindo uma sociedade mais justa e igualitária, sem opressões”. 

Reconhecendo o momento de mudança no pensamento, Consuelo explicou. “O sindicalismo precisou se reinventar para estar mais próximo da base nesse difícil momento da pandemia. Estudamos e estamos construindo um novo sindicalismo que luta pela diversidade, liberdade, e enfrenta as opressões. É fundamental reconhecer o direito de amar, de sermos quem quisermos ser. Escola é território para enfrentar todas as opressões”.

Realizada de forma virtual, a Roda foi transmitida na íntegra de forma exclusiva para participantes inscritos no congresso, mas a palestra inicial da convidada nacional ficou aberta e disponível no canal do Sinteal no Youtube.

Rita, que é professora de línguas e literatura inglesa, iniciou sua abordagem reforçando o papel da escola. “É com muita honra que me junto às vozes do Sinteal para que a gente possa começar o nosso trabalho. A educação não está restrita à sala de aula, o profissional da educação não é apenas o educador e a educadora, mas todo mundo que ajuda a construir uma outra escola, toda a comunidade que participa da escola, família que participa da escola”.

Utilizando Paulo Freire como referência desde o início de sua fala, ela foca na leitura de mundo que precede a palavra homofobia. “Freire tem uma pedagogia humanista que vê o educando como sujeito. Ninguém é uma folha em branco, traz consigo uma territorialidade, uma visão de mundo uma religiosidade, âmbito familiar. vida em comunidade”. 

Ela reforça que o momento é de reconstruir espaços de convívio, de romper com métodos opressivos em um tempo que o fascismo parece corroer a nossa sociedade e as possibilidades de diálogo estão depredadas. 

Explorando o tema: “a quais corpos é estendido o conceito de humanidade?”, ela remonta parte da histórica. “A luta contra a homofobia é só uma reatualização da luta mais antiga da classe trabalhadora, que a gente seja reconhecido e respeitado como um sujeito pleno, como construtores do mundo”. 

Utilizando referências culturais como Shaekspeare e Harry Potter, ela mostra como é atemporal o modo como a humanidade é um conceito que sempre escolhe pessoas que não fazem parte dela. “Nós, classe trabalhadora, não fazemos parte, somos o outro”.

Ela falou sobre a animalização dos corpos (macaco, piranha, vaca, veado) para mostrar que a desumanização dos corpos é atemporal. Afirmou que na Inglaterra os Irlandeses eram chamados de macacos, assim como os negros no Brasil. E que a esses grupos são reservados os piores lugares, pior comida. “É o lado que a corda arrebenta”.

“Se hoje sou convidada a falar sobre uma educação contra a homofobia devo lembrar que antes da gente estar sendo queimado na fogueira, vocês também foram. A cada novo recorte de tempo escolhem quem vai ser deixado de fora do conceito de humanidade”.
Liberdade e igualdade para poucos

De forma didática e com exemplos diretos, ela falou sobre os conceitos do liberalismo econômico e de que forma eles excluem grande parte da humanidade mesmo com um discurso de igualdade e liberdade. 

“Corrente filosófica que acredita que o que faz o humano humano é a sua liberdade de fazer contratos. Que ninguém pode tomar o que é dele. Engraçado porque convive muito bem com a escravidão. ‘Sujeito é quem é livre, menos esses povos que eu vou escravizar’”.

Rebatendo o argumento de que todo mundo é igual perante a lei e não é necessário o debate identitário, Rita fala de forma atual da realidade dramática em que ainda vivemos.  “Você pode pagar fiança? Então não é igual perante a lei. O que a lei fala sobre a sua sexualidade? Você pode votar? Teu local religioso é crime? Então não é igual”.

Em relação à comunidade LGBTQIA+, ela aprofunda que esse grupo até pouco tempo não tinha direito a casar, adotar, constituir família, ter acesso a herança ou plano de saúde. “Até esse ano no Brasil eu não podia doar sangue! Meu companheiro mora em outra cidade, e se ele sofrer um acidente eu não posso visitá-lo no hospital porque só podem entrar parentes, e eu sou o que? Hoje o corte de quem é humano e quem não é está também colocado aqui”.

E continua. “A gente ainda luta contra quem disse que pessoas negras, mulheres, indígenas não eram humanos. A quem fica restrito o conceito de humanidade? E a quem interessa que os nossos corpos não sejam lidos como humanos, sujeitos plenos e de direitos. A luta contra a homofobia é a luta do nosso tempo. São corpos relegados à condição de estranhos e abjetos, de não humanos, dejetos de uma sociedade. Nosso projeto de educação vai na contramão da barbárie”.

No momento do debate, educadoras e educadores participaram intensamente com reflexões e perguntas, aprofundando e enriquecendo ainda mais o momento. 

“Esse é um momento fundamental, para ampliarmos horizontes e percebermos o quanto essa luta é de todos e todas. Estamos construindo um mundo através de luta pela liberdade para todos e todas”. Finalizou Consuelo Correia, ao encerrar o ciclo de Rodas de Debates.