7 de fevereiro de 2026

Intolerância religiosa: a lição da Quebra de Xangô

Por Izael Ribeiro, presidente do Sinteal*

A Quebra de Xangô, ocorrida em Maceió há 114 anos, em 2 de fevereiro de 1912, foi um dos episódios mais violentos de intolerância religiosa da história brasileira. Terreiros foram invadidos, imagens e objetos sagrados destruídos, lideranças religiosas espancadas, presas ou forçadas ao exílio. Nada disso foi espontâneo, mas, sim, uma ação organizada, com apoio e omissão deliberada do Estado.

O alvo principal foram os terreiros que, em Alagoas, eram conhecidos como Xangô. Os racistas e intolerantes diziam que a fé do povo de terreiro era superstição, bruxaria, crime e/ou ameaça à ordem pública. O racismo forneceu a base ideológica para transformar fé em caso de polícia e justificar a violência aberta contra a população negra e periférica de Maceió.

A intolerância religiosa, naquele contexto, esteve diretamente ligada ao projeto político da Primeira República, na qual a elite buscava impor uma ideia de modernidade associada ao embranquecimento cultural, à moral cristã europeizada e à exclusão das tradições negras. Atacar os terreiros era parte desse projeto pseudo-civilizatório e excludente.

Os espaços religiosos afro-brasileiros eram também espaços de organização comunitária, solidariedade e preservação da memória negra no pós-abolição. Por isso, incomodavam. A violência daquele fatídico dia 2 de fevereiro de 1912 foi, simultaneamente, repressão religiosa e instrumento de controle social.

As consequências foram profundas. Em Maceió, as religiões de matriz africana praticamente desapareceram da vida pública por décadas. O culto foi empurrado para a clandestinidade, marcado pelo medo e silêncio, promovendo um apagamento sistemático da presença afrorreligiosa.

Esse silêncio não foi natural, foi imposto. A repressão destruiu não apenas terreiros, mas narrativas, identidades e registros históricos. Até hoje, a Quebra de Xangô é pouco ensinada, pouco debatida e com seu principal promotor, Fernandes Lima, sendo homenageado com o nome da principal avenida da capital alagoana, como reflexo de uma sociedade que ainda reluta em encarar seu racismo religioso.

Uma questão que gera muitas dúvidas é o porquê de em Alagoas não se comemorar o 2 de fevereiro, em referência a Iemanjá. A resposta está naquele ano de 1912. Em nosso estado, em 2 de fevereiro os tambores são silenciados em respeito ao povo de terreiro violentado há 114 anos, muitos dos quais perderam suas vidas.

A intolerância religiosa segue viva e organizada, se manifestando de forma institucional, com representantes eleitos que usam a fé cristã como escudo para perseguir religiões de matriz africana, demonizando práticas, criminalizando símbolos e estimulando o ódio.

Os espaços de poder no Brasil estão recheados de perseguidores travestidos de líderes religiosos usando a fé cristã como álibi, que confundem laicidade com privilégio e liberdade de crença com imposição moral. Isso não é fé. É projeto político autoritário.

Por isso, o combate à intolerância religiosa passa, necessariamente, pela representação política. Sem parlamentares, gestores e autoridades comprometidos com a laicidade do Estado e com o direito de exercer as religiões afro-brasileiras, a violência tende sempre a se repetir sob novas formas.

Defender a diversidade religiosa é defender a democracia. A Quebra de Xangô é um alerta histórico: quando o Estado se alia ao preconceito, a violência deixa de ser exceção e vira política. Intolerância religiosa não é opinião. É violação de direitos. E precisa ser enfrentada com memória, política pública e disputa real de poder.

*Publicado originalmente na edição de 7 e 8 de fevereiro do jornal Tribuna Independente