28 de março de 2026

A cultura do estupro precisa acabar

Por Consuelo Correia, vice-presidenta do Sinteal

Lendo o noticiário, me deparei com um dado estarrecedor. Em apenas três anos, de 2022 a 2025, foram registrados 22.800 casos de estupro coletivo no Brasil. São mais de 15 casos por dia. Pior que isso, a mesma notícia aponta que a grande maioria dos casos, 14.4 mil aconteceu contra crianças e adolescentes do sexo feminino. A primeira coisa que nos vem à mente é o medo. A tendência instintiva de manter o corpo e a mente em total estado de alerta, de se esconder, se encastelar, e tentar se proteger.

Em seguida, vem as reflexões: “onde foi que erramos?”, “como a nossa sociedade chegou a esse ponto?”. Mais que conviver com um ambiente violento, estamos vivendo a própria cultura do estupro. Os estudiosos da antropologia definem a cultura como um conjunto de crenças, valores, práticas, conhecimentos e outros elementos simbólicos e materiais produzidos, transmitidos e transformados pelos seres humanos em suas sociedades. Isso inclui as instituições sociais, a arte, a literatura, a religião, o idioma, os costumes e a tecnologia.

Na sociedade em que vivemos, tratar o corpo da mulher como objeto que pode não apenas ser utilizado ou descartado, mas também moldado de acordo com regras pré-estabelecidas, é culturalmente normal. E para domesticar algo que aos homens pertence, é preciso deixar sempre claro quem é que manda. Uma mulher que é estuprada, carrega traumas e marcas que moldam seu comportamento para o resto da vida. E quanto mais cedo isso acontece, mais forte é o impacto.

Ao longo das décadas, temos lutado e conquistado avanços (ainda muito distantes de uma situação de igualdade em relação aos homens), que nos permitem viver com um pouco mais de liberdade. O tal empoderamento, é nada mais que o poder sobre o nosso corpo, que temos buscado conquistar. Sem aceitar sequer reduzir a realidade de domínio total sobre os nossos corpos, o sistema reagiu.

Um movimento de ódio às mulheres vem sendo, sorrateiramente, implantado. De forma sistemática, a indústria passa a reproduzir um discurso de feminilidade, construir uma imagem de que a energia feminina está se perdendo com as mulheres assumindo o comando de suas próprias vidas. E para assumir o seu lugar de comando, as novas e antigas gerações de homens passam a ser incentivados a exigir cumprimento dos critérios.

Mesmo não falando diretamente em estupro, é comum a reprodução de comentários sobre o corpo, a roupa e o comportamento da mulher. Quem nunca ouviu dizer que a mulher “estava pedindo” só porque estava usando uma roupa específica ou sorrindo de forma mais descontraída em público? Quem nunca ouviu, até de outras mulheres, que ela “tem que se dar ao respeito”?

O que parece um discurso inofensivo, é o que forma no inconsciente coletivo a ideia de que é preciso conter, dominar, recuperar o poder. Nas redes sociais (com o algoritmo mundialmente programado), em eventos com fundo religioso que prometem “resgatar as famílias”, em palestras motivacionais ou até mesmo no programa de rádio, tudo é espaço para reforçar a cultura, que encoraja e provoca essa onda cada vez mais consolidada de estupro.

É urgente endurecer as leis, punir severamente cada caso, mas também punir esse movimento que acontece antes, que cria diariamente legiões de estupradores.