14 de março de 2026

Quanto vale o trabalho do cuidado?

Consuelo Correia, Vice-Presidenta do SINTEAL

Em uma sociedade capitalista, onde as condições mínimas de dignidade são necessariamente associadas ao quanto de riqueza um ser humano tem sob o seu poder, é preciso sempre se perguntar o porquê de alguns trabalhos serem colocados como de menor valor, ou até mesmo nenhum. E, não por coincidência, existe uma cultura ainda muito forte (sem nenhuma forte justificativa biológica) que determina que essas são funções femininas, e principalmente negras.

O trabalho do cuidado, que inclui desde a atenção a grupos mais vulneráveis (crianças, idosos e enfermos), até a limpeza e elaboração da alimentação, é essencial para que a economia continue girando. Por uma hierarquia exclusivamente cultural, isso tudo é tratado como função natural das mulheres. E por isso, em quase todas as famílias, há mulheres que executam essas tarefas de forma não remunerada. Fomos ensinadas que demonstrar amor é fazer isso pela nossa família, mas por que o amor dos homens não é condicionado a essa sobrecarga?

De geração para geração, aprendemos e reproduzimos muitas vezes sem perceber, essa ideia de que é natural uma mulher passar o dia inteiro trabalhando em casa, mas recebe sempre o rótulo de “mulher que não trabalha”. Fora aquelas que trabalham pelas mesmas 8h no trabalho remunerado, dividem as contas da casa, e ao chegar em casa assumem a segunda jornada para dar conta dessas tarefas.

Uma pesquisa da economista Brena Paula, da Universidade Federal de Santa Catarina, precificou os serviços executados diariamente nos lares brasileiros como babá, faxineira, passadeira, lavadeira, reforço escolar, o salário custaria mais de R$ 7.500,00. Mas na prática, não tem remuneração, folga, férias, ou nenhum direito trabalhista.

Quando não há uma mulher para executar esse trabalho de forma não remunerada, é comum a contratação de outra mulher, e em uma maioria esmagadora dos casos, uma mulher preta. Não precisamos nem pesquisar muito para saber que o valor atribuído a esse trabalho é sempre muito abaixo de trabalhos ocupados por homens, tidos como “masculinos”. A maioria, além da baixa remuneração, fica na informalidade, nas relações precárias e sem nenhuma segurança.

Não nos enganemos, o que gera riqueza é o trabalho. E o trabalho visto como produtivo pararia se não houvesse toda essa estrutura invisibilizada do trabalho do cuidado. É urgente a discussão a sério pelo fim da divisão sexual do trabalho, que garanta a valorização e humanização do trabalho de cuidado, que desenvolva políticas públicas efetivas para atender a população de forma comunitária, sem relegar toda a carga a nós mulheres.

O problema não é apenas de gênero, que sobrecarrega as mulheres, nem só de raça, mas também de classe. Quanto maior a desigualdade social, mais pesada a carga. Por isso, como mulheres, é questão de sobrevivência questionar o modelo capitalista que vivemos, em que quem tem mais dinheiro é quem não trabalha, vive dos rendimentos de quem produz e não consegue fechar as contas no final do mês. Hoje nossa pauta é a redução da jornada de trabalho, o fim da escala 6×1 pode ser um respiro para mulheres que emendam uma semana na outra, já que o único dia de folga é para o trabalho doméstico acumulado.