16 de maio de 2026

Dissonância cognitiva como negócio financeiro e político

Por Izael Ribeiro, presidente do Sinteal

O país viu nas últimas semanas pessoas bebendo detergente de lavar louças como forma de reafirmação ideológica após uma decisão da Agência Nacional de Vigilância Sanitária, a Anvisa.

Meses atrás, o Brasil viu pessoas pulando numa perna em frente a lojas da marca de sandálias Havaianas por causa de uma frase que remete a um ditado popular dita em um comercial estrelado por Fernanda Torres. Se voltarmos mais no tempo, vimos pessoas cantando o Hino Nacional para um pneu e tentando chamar E.T.s com a luz de tela de seus telefones celulares.

Até onde vai o limite da dissonância cognitiva dos seguidores bolsonaristas e seu uso político – e financeiro – por personagens do bolsonarismo?

A negação de decisões técnicas, como as da Anvisa, e a disposição de transformar isso em espetáculo público mostram um padrão preocupante. Quando pessoas passam a consumir ou defender o consumo de produtos da Ypê como ato político, não se trata apenas de ignorância pontual, mas de um comportamento coletivo moldado por identidade baseado na completa dissonância cognitiva coletiva construída com base na desinformação.

Esse tipo de atitude é alimentado por lideranças e influenciadores que transformam qualquer fato em instrumento de mobilização política e eleitoral, com a participação de figuras como Michelle Bolsonaro, abrindo-se espaço para a banalização de riscos concretos até mesmo à saúde.

O mesmo mecanismo se repete em outras situações, como negação a vacinas e na politização de marcas e produtos. O caso das Havaianas, de meses atrás, virou exemplo de como até o consumo cotidiano pode ser capturado por disputas ideológicas completamente alheias à realidade.

Por causa de uma frase, que se remetia a um ditado popular, dita por Fernanda Torres em um comercial da marca, pessoas começaram a passar em frente a lojas das Havaianas pulando de uma perna só.

Aproveitando-se da baixa capacidade cognitiva de quem embarcou nessa onda de histeria, Nikolas Ferreira (PL-MG) acabou de lançar sua própria marca de sandálias. Poucas coisas materializam mais a máxima “todos os dias um esperto e um otário saem à rua…”.

A dissonância cognitiva de parcela do povo brasileiro não é apenas tolerada, mas explorada. Criam-se narrativas, estimulam-se reações emocionais e, em seguida, oferece-se um produto, uma marca ou uma causa para monetizar esse engajamento. O que temos é um ciclo em que a desinformação gera mobilização e a mobilização gera lucro, muitas vezes às custas da vulnerabilidade intelectual e emocional de parte da população.

No plano social, o impacto da repetição desse comportamento é a corrosão da confiança em instituições, na ciência e na própria ideia de verdade compartilhada. Quando tudo vira opinião ou narrativa, desaparece o terreno comum necessário para qualquer debate público minimamente racional, dificultando a construção de consensos básicos.

Politicamente, nós já vimos os riscos desse comportamento e de sua exploração, pois estamos sob a mesma lógica, a que leva alguém a desafiar recomendações sanitárias e que pode levar a rejeitar

resultados eleitorais ou decisões judiciais. Aquelas cenas em frente a quartéis após as eleições de 2022 foram parte desse processo. O que parece caricatura é, na verdade, sintoma de uma radicalização desprovida de cognição que pode – e está – sendo instrumentalizada.

O que estamos vendo não é apenas o comportamento de um grupo, mas um modelo de disputa política que se consolida, baseado na negação da realidade, pondo em risco o convívio em sociedade e até mesmo nossa democracia. Mas enquanto isso continuar lucrativo e politicamente útil, a tendência é de aprofundamento, com custos cada vez mais altos.