23 de maio de 2026

O deputado alagoano sem pudor de atacar os trabalhadores

Por Izael Ribeiro, presidente do Sinteal

A discussão sobre o fim da escala 6×1 escancarou mais uma vez a distância entre parte da representação parlamentar e a realidade brasileira. Enquanto milhões de trabalhadoras/es acordam antes do amanhecer, passam horas em transportes lotados e enfrentam jornadas exaustivas seis dias por semana, deputadas/os federais articulam emendas à PEC da escala 6×1 para adiar direitos e ampliar ainda mais a exploração da mão de obra. Entre eles, o alagoano e bolsonarista Fábio Costa (PP).

A emenda de Sérgio Turra (PP-RS), com 175 assinaturas, vai além porque nada é tão ruim que não possa piorar. Sua emenda abre caminho para jornadas de até 52 horas semanais, fortalece o poder patronal e enfraquece a proteção trabalhista. Uma tentativa de vender como modernização aquilo que representa um retrocesso, fazendo parecer que a próxima etapa é a volta da escravidão.

Esta, após pressão popular, teve pedida sua retirada de tramitação por líderes partidários do centrão na noite desta quarta-feira (20).

Já a outra emenda é do deputado Tião Medeiros (PP-PR) que, mesmo com pesquisas mostrando amplo apoio popular em cerca de 70% à redução da jornada, empurra a mudança para 2036 e ainda cria brechas para manter jornadas de até 44 horas semanais em atividades consideradas “essenciais”, praticamente inviabilizando a mudança. Ela tem 171 assinaturas, um verdadeiro estelionato com o interesse popular.

Nas duas propostas constam a assinatura do deputado Fábio Costa, que sempre se vendeu como defensor da família, como todo bolsonarista, mas atua para que pais fiquem cada vez menos em convívio com suas/eus filhas/os, que percam direitos e adoeçam.

Este parlamentar, assim como os demais, ocupa um cargo com salário de quase 40 mil reais, fora verbas e benefícios. Via de regra, trabalha presencialmente somente em três dias da semana. Fábio Costa escancara o total descaso de parte de nossa representação parlamentar em Brasília de forma despudorada, já que outros tantos tiverem o pudor de não assinar essas emendas em ano eleitoral.

Para as/os trabalhadoras/es, defendem mais horas, menos proteção e mais poder para empresas imporem condições. Para a classe dominante, privilégios, salários altos e uma rotina muito distante da realidade da maioria da população.

A redução da jornada de trabalho não é um capricho, mas, sim, uma discussão ligada à saúde física e mental, à convivência familiar, à produtividade e à qualidade de vida. Países que reduziram jornadas perceberam melhora no desempenho profissional e diminuição do adoecimento causado pelo excesso de trabalho, gerando até economia com gasto em saúde pública.

O Brasil não pode continuar preso a uma lógica em que a/o trabalhadora/or vive apenas para sobreviver e propostas como estas surgem em um período em que a informalidade e a fragilidade sindical imperam devido a reforma trabalhista de Temer e a continuidade de destruição da CLT de Bolsonaro. Em um cenário assim, ampliar o peso do “negociado sobre o legislado” significa empurrar o trabalhador para aceitar condições cada vez piores por medo de perder o emprego.

O debate sobre o fim da escala 6×1 também virou uma discussão sobre representação política. Quem está defendendo os interesses da população trabalhadora dentro da Câmara dos Deputados? Será que quem vive a realidade do povo apoiaria medidas para adiar direitos por dez anos ou ampliar jornadas para mais de 50 horas semanais? A resposta é simples e direta: não!

O parlamento decide quanto a/o trabalhadora/or descansa, quanto tempo passa longe da família e até o nível de desgaste físico e mental imposto à população. Por isso, esta discussão é sobre o tipo de país que construiremos e quem nos representa para isso.