24 de setembro de 2026

Pesquisa CNTE/FGV revela que pressão política afeta autonomia de 61% dos professores

Levantamento com mais de 2,2 mil trabalhadores da educação mostra que 71,7% sentem o trabalho mais exposto a críticas políticas do que no passado

Trabalhadores/as da educação têm vivenciado um crescimento na vigilância e insegurança profissional devido à pressão política no cotidiano escolar, apontam os resultados da pesquisa “Politização no Cotidiano das Escolas: Um Olhar para a Prática Docente”.

Segundo os resultados, 61,7% dos/as entrevistados/as sentem que a pressão política interfere em sua autonomia profissional. O estudo contou com a participação de 2.235 docentes da educação básica na rede pública por meio de um questionário anônimo online.

O levantamento foi produzido pela Escola de Administração de Empresas de São Paulo da Fundação Getulio Vargas (FGV/EAESP) em parceria com a Confederação Nacional dos Trabalhadores em Educação (CNTE).

Confira os dados completos clicando aqui.

“A CNTE tem denunciado a pressão que os professores têm sentido na sala de aula, que tem levado a um adoecimento recorde, e a forma como estão utilizando avaliações para punir aqueles que não seguem exatamente a cartilha que é encomendada pelos governos. Participamos articulando os sindicatos em âmbito nacional, para que a pesquisa tivesse essa amplitude de atingir todo o país”, disse o secretário-geral da CNTE, Fábio de Moraes.

“Esta é mais uma ferramenta que vai demonstrar para a sociedade que é preciso ter uma mudança imediata com relação à educação no nosso país, que governos e prefeitos devem respeitar aquilo que foi construído pela população, através do processo acadêmico, dos planos de educação e da legislação vigente. A escola não é um lugar nem para pressão política e nem para interferência política”, completou Fábio.

Insegurança profissional

De acordo com os resultados, essa percepção de perda de autonomia é um fenômeno recente: 71,7% dos/as participantes afirmam que seu trabalho está mais exposto a críticas políticas do que no passado.

“Esses dados nos mostram que a polarização política não está apenas no debate público ou nas redes sociais, ela já alcança o cotidiano das escolas e interfere nas condições em que os profissionais exercem seu trabalho”, comentou a secretária de Assuntos Educacionais suplente da CNTE e coordenadora da pesquisa, Odisséia de Carvalho.

“É importante destacar que a crítica e a participação das famílias e da sociedade fazem parte do ambiente democrático. O problema surge quando essa crítica se transforma em pressão ou constrangimento capaz de interferir no exercício docente. A escola precisa ser um espaço em que diferentes conhecimentos e perspectivas possam ser trabalhados com responsabilidade e fundamentação”.

Adaptar a pedagogia aos alunos x Seguir regras institucionais

Três em cada quatro participantes (75,6%) afirmaram ter medo de consequências profissionais caso decisões pedagógicas contrariem interesses políticos. Esse dado se relaciona com a preocupação de ter ações docentes rotineiras confundidas com agendas políticas, sentida por 66,8% dos que responderam.

“Educadores precisam cumprir as determinações institucionais, mas, ao mesmo tempo, trabalham com alunos que possuem diferentes ritmos de aprendizagem, condições sociais, necessidades educacionais e realidades familiares. Isso requer adaptabilidade”, explica Odisséia.

Os dados mostram uma tensão entre flexibilidade profissional e a existência de regras institucionais. De um lado, 64,5% dos participantes dizem ter pouco espaço para interpretar as regras e que devem apenas segui-las. De outro, 51,1% afirmam que conseguem, em alguma medida, adaptar políticas e regras às necessidades específicas dos alunos.

“No cotidiano do trabalhador, essa tensão pode gerar insegurança e sobrecarga. Para os alunos, uma rigidez excessiva também pode representar um problema: tratar situações diferentes exatamente da mesma maneira pode limitar o processo de aprendizagem.”

Odisséia aponta que o trabalho da educação implica um dia a dia com situações diversas e complexas: “A escola não funciona como uma linha de produção. Cada unidade escolar possui uma realidade, cada turma apresenta características próprias e cada aluno possui necessidades específicas”.

“O profissional da educação não pode ser reduzido a um mero executor de regras. Ele é um profissional que possui formação, experiência e conhecimento da realidade dos seus alunos. Valorizar esse profissional também significa reconhecer sua capacidade de tomar decisões pedagógicas dentro dos parâmetros estabelecidos pelo sistema educacional.”

Gestão democrática

A solução para essa insegurança, segundo Odisséia, é fortalecer a gestão democrática e os espaços coletivos de decisão dentro das escolas.

“Quanto mais as decisões pedagógicas e institucionais forem construídas com participação dos profissionais, das famílias, dos estudantes e da comunidade escolar, menor será o espaço para decisões arbitrárias e para conflitos baseados apenas em percepções individuais”, pontuou.

Regras de gestão claras, respeito à autonomia pedagógica e garantia de formação continuada para os/as profissionais também são aspectos fundamentais. Odisséia ressalta que o resultado da pesquisa vai além de um diagnóstico de problemas.

“Ela nos aponta caminhos. Se os profissionais estão dizendo que se sentem pressionados, expostos e com pouca autonomia, a resposta das políticas públicas precisa ser fortalecer esses trabalhadores. Não existe educação pública de qualidade sem profissionais valorizados, respeitados e seguros para exercer sua profissão. Valorizar a educação também significa confiar em quem está todos os dias dentro da escola fazendo a educação acontecer”.