O jogo duplo contra os trabalhadores
Por Izael Ribeiro, presidente do Sinteal
A PEC pelo fim da escala 6×1 foi aprovada, em dois turnos, no Senado nesta quarta-feira (14). Na véspera, um dos candidatos à Presidência anunciou que votaria a favor da medida. Horas depois, foi revelado que ele adiantou a empresários que, se eleito, derrubaria a mudança e defenderia o pagamento por hora trabalhada.
Diante dos trabalhadores, anuncia apoio ao fim da escala 6×1. Aos empresários, promete rever a medida. É um cálculo eleitoral para conquistar votos sem perder a confiança de quem se opõe à mudança. E isso nos leva à pergunta: a quem mente, aos trabalhadores ou aos empresários?
A resposta já estava no anúncio de voto favorável à PEC, pois ele admitiu que votaria a favor porque a maioria da população quer. Além disso, toda a entrevista foi permeada pela defesa de outra proposta.
O candidato também defendeu que o Estado compense os empresários pelos custos da redução da jornada, apresentando a mudança como ameaça aos empregos, às empresas e às famílias, sem provar que esses efeitos necessariamente ocorrerão. E isso provoca outra pergunta: de onde virá esse dinheiro?
Toda alteração trabalhista exige planejamento e adaptação, mas isso não significa manter milhões de pessoas presas a uma rotina exaustiva. O endividamento das famílias, citado contra o fim da escala 6×1, é real. Mas usar as dificuldades financeiras para negar descanso a quem trabalha inverte o problema. Quem vive no limite precisa de renda suficiente, condições dignas e tempo para cuidar de si.
A produtividade depende de tecnologia, organização, qualificação e saúde. Em determinadas atividades, jornadas menores podem reduzir cansaço, erros, acidentes e afastamentos, diminuindo também custos ao erário. Já o desgaste físico e mental, a falta de convivência familiar e a dificuldade de estudar ou resolver tarefas cotidianas não aparecem na contabilidade das empresas.
Transferir parte da conta para o Estado é a alternativa mais defendida pelo mercado, com o endosso da mídia hegemônica, desonerando a folha de pagamentos. A medida reduz a arrecadação previdenciária e limita recursos a serviços públicos. É socializar os custos enquanto os benefícios ficam concentrados.
O candidato também apelou ao emocional ao usar as dificuldades das mães trabalhadoras para questionar o fim da escala 6×1. Mães precisam de tempo, creches públicas, saúde, proteção no emprego e condições para compartilhar responsabilidades familiares, não de uma jornada exaustiva para manter a renda. A legislação prevê modalidades de contratação e teletrabalho, mas isso não garante autonomia a todos nem substitui a discussão sobre os limites da jornada.
Defender flexibilidade sem garantir direitos pode transferir o poder de decisão aos empregadores. É esse o risco da remuneração por hora trabalhada defendida pelo candidato. Para quem depende do salário para pagar aluguel, alimentação e contas, a remuneração variável pode significar menos renda e mais insegurança. Patrões e empregados não negociam em condições iguais.
O fim da escala 6×1 trata da distribuição do tempo, da renda e dos ganhos de produtividade. A economia deve servir à sociedade, não exigir que milhões sacrifiquem a saúde e a vida familiar. Descanso não é favor nem luxo. É dignidade.
O candidato demonstrou não ter compromisso com essa dignidade ao esconder suas intenções por medo de perder votos e sinalizar aos empresários que, se eleito, pretende desfazer a redução da jornada de trabalho. Aliás, a covardia o fez faltar à sessão no Senado sobre a PEC do fim da escala 6×1, votando a favor remotamente.




